quarta-feira, 11 de julho de 2012

Não sonho


— O que você viu? perguntou André
— Somente neve branca. Respondeu Rômulo.
— E o que acontecia?
— Nada.

Isso era o que ia sempre para o relatório desde que Rômulo decidiu contratar André para monitorar e relatar o sonho que vinha tendo praticamente toda a sua vida. Só depois de trabalhar como neuro-psicólogo e se fascinar pela infinita variedade de sonhos que seus pacientes lhe contavam, que Rômulo se instigou ferrenhamente e quis descobrir porque o seu sonho era sempre aquele. E era nisso que depois do relatório, o renomado doutor sempre pensava enquanto caminhava em direção ao seu escritório para mais um dia de trabalho.

Essa dúvida não combinava com Rômulo, fora ela, tudo em sua vida era claro, tudo estava no roteiro, tudo estava sob o controle. Através de simples cálculos era possível saber até mesmo o que ele comeria daqui 692 dias. E insistir era uma coisa que ele fazia bem, pois foi assim que construiu sua carreira que lhe garantiu uma vida regrada, pacata e tranquila num bairro nobre da cidade, e era insistindo que ele achava que conseguiria a resposta.

Mas naquele bairro repleto de intelectuais e pessoas da alta sociedade, naquela vida sem grandes preocupações, ele não podia prever que um garoto vestindo trapos puxaria a manga de seu paletó e lhe pediria um simples pedaço de pão.
— Um pão? Porque alguém precisaria de um pão? ele se questionou.

Aquilo foi surpreso, ultrapassava qualquer noção que ele tem ou teve de necessidade. Sem reação, continuou a caminhada e tentou levar o dia como mais um dia normal de trabalho.

Naquela noite, dormiu como sempre dormiu, e quando acordou ouviu a pergunta:

— O que você viu? perguntou André.
— Somente neve branca. Respondeu Rômulo.
— E nada acontecia, certo?
— Não, dessa vez aconteceu algo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Espetáculo Casual


(Créditos da imagem: Proxile)

Numa parte sempre chuvosa do meu coração, em uma rua onde o asfalto molhado brilha com a luz dos postes, há um confortável bar. Ele já foi menor e a cada visita parece ficar um pouco maior. Está sempre vazio, mas é pra lá que eu vou quando sonho.

Me sento no mesmo lugar de sempre, pois ali tenho uma visão privilegiada do palco, também foi ali onde me sentei numa das noites mais marcantes que meus olhos puderam registrar. Que Show! Na verdade, foi a partir daquele show que aquele bar realmente começou a existir pra mim. Aquela voz, aquela música, aquela garota, aquela boca que mesmo quando não estava cantando, soava uma doce canção que minhas lembranças sempre tocam quando podem.

O bar realmente é convidativo, mas depois de alguns outros shows percebi que mesmo assim sendo, só é visitado quando a garota toca por lá. As cadeiras estão acostumadas com a solidão, pois ela tem exclusividade naquele palco.


É triste ver aquele lugar vazio, e é por isso que eu torço para que aquela cortina se abra de repente, que aqueles cabelos ruivos envolvam o microfone e aquela voz encante mais uma noite ali.

(Créditos da imagem: Nebelang)

sábado, 30 de outubro de 2010

A nota que falta na melodia

O grande violeiro andante estava instigado, nunca uma cidade tinha sido tão tímida com ele, quanto a que estava agora. Dos dois dias que estava ali, só se alimentou das próprias previsões acumuladas durante todas suas sucessivas viagens. Em todas elas, a sua música, o seu ganha pão, o seu violão, ganhou e conquistou todos aqueles povoados. Mas não entendia porque era tão rejeitado na Vila João Vincente.

Se desafiou, e decidiu ficar mais do que geralmente fica, mas nesse caso nenhum rabo de saia o tinha convencido disso. Ele não queria só entender, ele queria a simpatia de toda cidade.

Tocou afinado, esforçado e determinado. Tocou uma vez, refez, plagiou e inventou.

Não obteve a benção do padre, não viu nenhum sorriso de nenhuma senhorita, o bebum não veio cantar junto, o vira-lata não saiu do pé do vagabundo. A única palma que ouviu foi sua expectativa que bateu.

Esfomiado, irritado e inconformado, foi embora, mas não sem antes ouvir:

"Em João Vincente não se chega, mas daqui se parte, vá embora que esperamos você voltar com humildade."

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Valioso Atraso

Às sete horas da manhã ninguém é de ninguém.
Nenhuma vida vale mais que um atraso naquele emprego chato.
Observe.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Paciência USB

Tadeu era um bom sujeito.
Arranjou uma namorada irritante.
Ela tinha manias e ele fingia que não se importava.
Ele sentado na cama e ela descarregando reclamações em cima.
Ele de olho na tela do laptop, ignorando o fato dela estar errada.
Decidiu tomar uma atitude.
Levantou seu braço.
Alcançou seu mouse USB.
O touchpad realmente o irritava.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Futuro Alternativo?

"É... e se de repente, algum dia no futuro, eu exercesse alguma função que fugisse do que eu tenho planejado, sei lá, professor de Artes. Será? Seria legal, ensinar é legal, mas o melhor seria o desafio de driblar a dislexia e não embaralhar as letras e as palavras, por quanto tempo eu conseguiria? Se eu aguentasse, sem dúvida no final do dia eu chegaria em casa e soltaria: "Boa mulher! minha linda noite." ou "Por favor quarto, pare de bagunçar meu filho!".

A não ser que eu fizesse um exercício de dicção e tratasse isso, eu também poderia ir para a Rússia, lá os filhos estão acostumados a serem bagunçados pelos seus quartos, claro, isso de acordo com a Reversal Russa"


ps.: Será que na Russia as palavras trocam os dislexos?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

"Burn Baby, Burn"

"Hoje voltando do trabalho, de dentro do ônibus durante a curta pausa de minha leitura, eu vi na imensidão do cerrado, no meio de toda vegetação queimada e morta, um solitário e brilhante Ipê-amarelo, assustadoramente se exibia, era tão só, o que eu lia? Stephen King."

Ipê-amarelo-do-cerrado
ps.: O conto era o "O Vírus da estrada segue para o Norte" e me assustou o fato da cena seguir a frase que encabeça o post.